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21 de dez de 2008

Emoção e Espiritualidade

Verdadeiras loucuras estão sendo cometidas em nome de Deus. Uma amiga minha foi a uma igreja pentecostal dessas bem conhecidas para participar de um culto. No meio do culto, as pessoas empurraram as cadeiras para um canto e as empilharam. Formou-se um salão vazio no meio e nesse momento começou um frenesi doido de gente rodando como pião, outros sapateando e a “profetada” soltando a língua, ao som de uma música que lembrava bem um pagodinho, cantado durante todo o tempo por um cantor de banheiro.
Ao final do culto, contabiliza-se o prejuízo. Dezenas de saltos quebrados, pernas todas cheias de varizes e muitas calorias queimadas. Claro que a minha amiga saiu logo que começou essa bagunça que chamam de “re-plé-plé” e o batimentos dos pés chama-se “sapato de fogo”.

Há outra ala de igrejas que se especializaram no evento chamado pejorativamente de “cai-cai”, mas que para eles é o “cair no poder de Deus”. Participei um ano de uma dessas igrejas fazendo imposição de mãos e empurrando as cabeças das pessoas para que elas caíssem no chão. E elas caiam porque eu as tirava fora do centro de equilíbrio. Claro que há algumas que caem por opressão ou desmaio. Mas isso está longe de ser uma manifestação autêntica do Espírito Santo. Foi um momento de desvario em minha vida que já passou. Mas o que me despertava a atenção era que as mesmas pessoas sempre caiam. As que nunca caíram, assim continuaram: em pé. Diziam que era porque elas resistiam ao Espírito Santo. Bobagem. As maiorias das que caiam, caíram da fé e os irmãos que ficaram em pé assim permanecem até hoje.

Converti-me numa igreja pentecostal, a Primeira Igreja Evangélica do Cambuci na Rua Freire da Silva, 418, em 1972 sob forte impacto da presença do Espírito Santo, quando confessei meus pecados ao Senhor Jesus Cristo. Naquele dia pregava o pastor Valter Rodrigues*. Deus o usou para revelar a minha vida. Ele fundou naquele mesmo ano em outubro a Igreja Evangélica de Pinheiros. Minhas carnes tremiam como vara verde e eu nem sabia direito o que estava acontecendo. Tinha apenas 18 anos de idade. A partir desse dia, sempre que orava ao Pai, nem sabia orar direito e repetia o Pai Nosso, a presença do Santo Espírito manifestava-se onde eu estivesse. Era muito comum eu orar com a cabeça coberta na sala em voz sussurrando, e lá estava a presença do Espírito Santo manifestando-se docemente debaixo do lençol, como que me dizendo: “Eu te amo, filho meu”. Desde esse dia me apaixonei pelo Espírito Santo e ele passou a ser meu alvo, minha obstinação. Onde houvesse reunião de oração onde eu pudesse estar, lá ia eu busca-LO. Ninguém sapateava, ou gritava, ou caia de costas. De repente o mover do Espírito Santo começava a batizar as pessoas que recebiam o dom de línguas. Não é como hoje, esse “dom” em que as pessoas repetem “suriandalamai” e acham que foram batizadas. O batismo genuíno só aconteceu comigo depois de 15 anos de busca, orando no meu estúdio montado no quarto, revestido de material acústico absorvente, com o rosto no chão, após muito tempo de busca e fervor, com angústia. Não é fácil recebe-LO. Algumas pessoas recebem mais rapidamente o dom e outras esperam por muitos anos. Não sei quais são os critérios de Deus, mas ele tem as suas razões. Mas tem-se que jejuar e orar muito, pedindo a Deus os dons e Ele dá.

Esse movimento que dá vazão às emoções nas igrejas, nada tem a ver com avivamento ou a presença do Espírito Santo. O ser humano é um ser emotivo, tanto que quando assiste a um filme triste chora, mesmo sabendo que é uma montagem. Esses movimentos são humanos. Começa-se a tocar uma música, repete-se indefinidamente uma frase por uma hora. Aquilo começa a entrar na cabeça das pessoas como um mantra. Daqui a pouco uma histeria toma conta do ambiente, uns começam a latir como cachorro, urrar como leão, se arrastar no chão como cobras, chorar como crianças, imitar bêbados andando, dizendo que estão embriagados do Espírito Santo, e outras práticas estranhas, que nada tem a ver com igreja de Cristo, com Evangelho. As pessoas estão pensando que estão na presença de Deus e que tudo isso é a glória do Senhor, mas na verdade é tudo emoção coletiva.

Se o evangelho é a boa notícia de salvação àqueles que não conhecem a Cristo, como é que eu posso convidar uma família de bem do prédio ao lado para ir a um lugar desses? Imagine a cena: o pai de família cai no chão, em seguida a mulher e os filhos, começam a se rolar de um lado para o outro como cachorro brincando na areia. Ao final do culto chegam a casa. Ao entrar no prédio, com as roupas amassadas e os cabelos despenteados, os vizinhos dizem: o que aconteceu? Vocês foram assaltados? Não, respondem eles. Nós fomos à igreja louvar a Jesus Cristo. Agora convide esse vizinho para ir também: você quer ir conosco no próximo domingo?

Sejamos sinceros: a igreja instituição está acabada. Hoje, para pregar o evangelho para alguém, primeiro tenho que me defender dizendo que não sou iguais a eles, não roubo o meu povo, muito pelo contrário, eu mesmo entrego o dízimo do meu trabalho secular. Não vivo de igreja. Depois, tenho que defender o evangelho dizendo que há bons e maus advogados, médicos, políticos e pastores. Após essa defesa, prego as boas novas do reino e mesmo assim está sendo muito difícil ganhar almas para o Reino de Deus. Graças a uma meia dúzia de famosos bem conhecidos, que escandalizaram a Igreja de Cristo pelos meios de comunicação, com crimes envolvendo lavagem de dinheiro, instituições de fachada para enganar o governo.

E o que me deixa triste é ver essas igrejas cheias de gente. Parece que as pessoas gostam de ser enganadas. Apóiam seus líderes, mesmo sabendo das maracutaias e acreditam que tudo isso é cilada do satanás. A culpa é do diabo. O diabo tem culpa em muita coisa, mas atribuir a ele coisas que são de responsabilidade exclusivamente do homem e que não deram certo, é pegar até o diabo como bode expiatório. Tudo serve. Era só o que faltava.

Minha congregação é formada de discípulos que ainda estão em formação. Estão sendo ensinados em classes de discipulados em 3 módulos que dura 2 anos. É pequena, porque o caminho estreito não atrai muita gente mesmo. Não tenho interesse em que ela cresça. Sou muito limitado e só consigo administrar no máximo 100 pessoas. A parábola de Cristo falando da ovelha perdida, fala de um pastor cuidando de 100 ovelhas. Acho que esse é o número certo para um pastor cuidar, porque Jesus não usa números aleatórios. A palavra não é falsificada. Tenho medo de ir para o lago que arde com fogo e enxofre. Quero viver a vida eterna ao lado de Jesus para sempre por isso só prego o que está na Palavra e não aceito nenhuma dessas práticas do neo-pentecostalismo, que é totalmente humano. Deus não conhece essas pessoas que ensinam e as que as praticam também.

Se você leu essa mensagem e se sentiu incomodado, é um bom começo. Talvez ainda haja esperança para você. Sua mente ainda não está cauterizada. Ore, busque a Deus, busque sua Palavra, peça direção a Ele. Caso você esteja numa igreja dessas, ouça o que diz a Palavra de Deus: “sai dela, povo meu, para que não incorras nas suas práticas e não sejas participante dos seus pecados.” Há responsabilidade solidária entre os que ensinam e os que praticam.

Cuidado: A Vida Eterna não pode ser desperdiçada. Não há segunda instância de julgamento. A sentença proferida será definitiva. Emoção nada tem a ver com a verdadeira religião de Cristo, que é cuidar dos pobres, das viúvas, visitar doentes, presos, ajudar o necessitado, falar da salvação àqueles que não tiveram um encontro com Cristo e àqueles que, decepcionados com igreja estão cada vez mais ficando em casa.

Maranata! “Meu Senhor Jesus, venha logo. “